Conversando com
uma criança sobre Câncer
Uma adaptação do livro: “Talking With Your Child About
Cancer” editado por National Institute of Health & National
Cancer Institute - USA.
(OBS: reproduzido integralmente como publicado pela AACN-RJ)
Este livro é uma iniciativa da AACN-RJ (Casa Ronald McDonald)
e foi adaptado de uma publicação do National Cancer Institute,
Bethesda, dos Estados Unidos, com o objetivo de responder as dúvidas
mais comuns que surgem quando recebemos o diagnóstico de que
uma criança tem câncer.Esperamos que as informações
aqui contidas sejam suficientemente claras para servir de orientação
à todos que lidam com doença, ajudando-os a encontrar soluções
específicas para as necessidades de cada criança.
Mesmo depois de ler este livro, poderão ainda existir dúvidas
a respeito da doença e dos melhores procedimentos, os profissionais
especializados são as pessoas mais indicadas para auxiliá-lo
a encontrar as respostas.
Temos certeza que esta publicação é o primeiro passo
para a realização de um antigo sonho da AACN-RJ, que é
acreditar que o acesso a informações corretas e confiáveis
é uma das melhores maneiras de permitir que a criança com
câncer possa se sentir confiante e ter esperança na vida, ao
mesmo tempo que reforça que o câncer não é contagioso,
tem tratamento, e a cada dia, uma grande chance de cura.
“Conscientizar, humanizar e apoiar o tratamento de câncer infantil”
Conversando com uma criança sobre câncer.
Tomar conhecimento que uma criança está com câncer
é uma das piores notícias que se pode ouvir na vida.Se você
for pai ou responsável, tem que decidir como contar à ela.
E se não for, se informar como foi dito à ela.
Questões como “O que deve ser contado à criança?”,
“Quem deve contar-lhe?”, “Quando deverá ser contado?”, afligem a muitos
pais, responsáveis e todas as pessoas envolvidas. E este livro foi
escrito para ajudá-los a responder a essas perguntas.
Você talvez tenha se perguntado se deve contar a ele ou não.
No passado as crianças não eram informadas da situação,
mas uma série de estudos demonstrou que a maior parte delas sabe
que tem uma doença grave, apesar das tentativas de esconder-lhes
este fato.
É muito provável que a criança já esteja
suspeitando que alguma coisa está errada. Ela pode estar se sentindo
mal, vendo seu médico com mais frequência, tendo que fazer
exames desconfortáveis e até assustadores. Ela também
percebeu a ansiedade e os temores da família e dos amigos mais próximos.
As crianças que não são informadas sobre a sua doença,
frequentemente utilizam sua imaginação e seus temores para
explicar seus sintomas.
Muitas crianças com câncer são levadas a pensar que
sua doença é uma punição por alguma coisa que
fizeram, e o resultado é que podem vir a ter sentimentos de ansiedade
e culpa, desnecessariamente.
Os profissionais de saúde geralmente concordam que contar a verdade
sobre a doença à criança diminuiu seu “stress” e o
sentimento de culpa.Conhecer a verdade também leva a criança
a cooperar mais com o tratamento. Além disso, conversar sobre câncer
freqüentemente ajuda a unir mais a família e faz com que
o fato de enfrentar a doença se torne em pouco mais fácil
para todos.
Quem deverá contar?
A resposta para esta questão é pessoal, e depende do relacionamento
que vocês, pai, mãe ou responsável, têm com a
criança e os seus sentimentos.
Sendo pais ou responsável, você prefira que seja você
mesmo a contar, ou talvez que o médico ajude a explicar a doença.
De qualquer forma, você ou alguém que tenha intimidade com
a criança deverá oferecer-lhe apoio, encorajamento e amor.
Caso você mesmo decida contar sozinho, sem a ajuda do médico,
conversar com outras pessoas poderá ajudá-lo a escolher o
que dizer.
Os proficionais de saúde, como o médico, a enfermeira,
o assistente social ou o psicólogo podem dar boas idéias.
Converse com pessoas envolvidas com outras crianças com câncer.
Entre em contato com membros de grupos voluntários para obter aconselhamento.
Meditar sobre aquilo que você deseja dizer, conversar com outros adultos
e fazer um ensaio com alguma pessoa próxima ajudará você
a sentir mais à vontade.
Quando a criança deverá saber?
Uma vez que você está sendo o melhor juiz a respeito do
jeito e da personalidade da criança, você, pai ou responsável,
provavelmente é a melhor pessoa para decidir quando ela deverá
ficar sabendo. Não existe um momento certo para contar a uma criança
que ela está com câncer. Tente encontrar um momento de tranquilidade
e um lugar onde você e a criança possam estar a sós.
Este ambiente criará uma atmosfera de calma e apoio.
Provavelmente será melhor contar à criança logo
após o diagnóstico. Esperar muitos dias ou semanas fará
com que ela tenha mais tempo para usar a imaginação e desenvolva
medos dos quais talvez seja difícil e livrar no futuro.
O que deverá ser contado?
Antes de conversar com a criança, você, pai ou responsável,
precisa ter conhecimento sobre o tipo de câncer que ela tem e o tratamento
que será utilizado. Dessa maneira você estará preparado
para responder às perguntas. A criança se sentirá
mais segura se você puder fornecer informações corretas.
O volume de infomações e a maneira que serão transmitidas
dependerá da idade e da maturidade da criança. Como regra
geral, usar uma maneira aberta, franca e suave é o melhor caminho.
Ao procurar um órgão envolvido com tratamento de câncer
para se informar melhor, será apresentada a você uma descrição
geral dos diferentes estágios de desenvolvimento da criança,
bem como daquilo que elas estão em condiçõeas de compreender
acerca da doença séria, conforme sua idade. Por favor, tenha
em mente que estamos apresentando apenas regras gerais e que a criança
poderá ser incluída em mais de uma das categorias que vamos
apresentar, ou até mesmo, em nenhuma delas.
Recém- nascidos até 2 anos.
Crianças dessa idade não podem compreender uma doença
como o câncer. Não podem vê-lo ou tocar nele. Elas estão
mais preocupadas com as coisas que estão acontecendo com eslas.
A separação dos seus pais é a sua maior preocupação.
Crianças de 1 ano estão interessas nas coisas à
sua volta e em como fazer para controlá-las. As muito pequenas ficam
assustadas com os procedimentos médicos. Muitas choram, fogem ou se
contorcem, na tentativa de controlar as coisas que estão acontecendo.
Após os 18 meses de idade, as crianças começam a
pensar sobre o que está ocorrendo ao seu redor, e é por esta
razão que o melhor coisa a fazer é uma abordagem honesta do
problema. Você, pai ou responsável, diga a verdade sobre as
idas ao hospital e também sobre os procedimentos médicos, que
poderão ser dolorosos. Você poderá contar à criança
que as picadas das injeções vão doer um pouquinho e
se ele quiser chorar, não há problema. Isso fará com
que ela saiba que você compreende e aceita os seus sentimentos. A sua
franqueza também fortalecerá a confiança que ela tem
em você.
A possibilidade de fazer escolhas, desde que não prejudiquem o
tratamento e demais cuidados com a saúde, poderá aumentar a
auto-confiança e também o sentimento de controle da criança.
Por exemplo, se um remédio é engolido, ela poderá escolher
misturá-lo com o suco de determinada fruta.
De 2 até 7 anos de idade.
Criança de 2 a 7 anos podem compreender melhor a doença.
Elas têm a tendência de observar as coisas a partir do seu
próprio ponto de vista, e pensam que o mundo inteiro gira em torno
delas. Costumam associar os acontecimentos a uma única coisa. Elas
associam, por exemplo, a doença a um acontecimento específico,
tal como estar de cama ou comer gelatina. As crianças nesta idade
freqüentemente pensam que sua doença foi causada por um determinado
comportamento, e por isso pensam que ficarão boas automaticamente
se seguirem certas regras.
As crianças menores precisam ser informadas repetidas vezes que
não cometeram nenhum erro que pudesse causar esta doença
e que o seu tatamento não é uma punição por
alguma coisa que fizeram, disseram ou pensaram. Nesta faixa de idade também
tem necessidade de que os procedimentos médicos lhes sejam explicados
de maneira franca e realista. Isso as ajuda a lembrar que os testes e tratamentos
são feitos para que se sintam melhor..
Explicações simples sobre câncer também são
importantes.Estórias que relacionam a doença com idéias
já conhecidas ajudam a explicar o diagnóstico. Essas comparações
podem ser ajustadas para o tipo específico de câncer da criança.
Aquelas que estão na faixa de 2 a 7 anos, por exemplo, compreendem
o bem e o mal. Tente explicar-lhe o câncer e seu tratamento como
uma luta entre células “boas” e células “más”. Tomar
os remédios ajudará as células “boas” a se tornarem
mais fortes para poderem vencer as células “más”.
De 7 até 12 anos.
As crianças com idade de 7 até 12 anos ainda estão
limitadas às suas próprias experiências, mas começam
a compreender as relações que existem entre diversos eventos.
Assim sendo, elas vêem a sua doença como uma série de
sintomas. Elas não estão muito propensas a acreditar que a
sua doença resultou de algo que fizeram e compreendem que virão
a melhorar se tomarem os remédios e se comportarem de acordo com a
orientação médica. As crianças dessa idade são
capazes de cooperar com o tratamento.
A explicação sobre câncer para essas crianças
pode ser mais detalhada, mas ainda será necessário que inclua
sitações familiares. As comparações também
serão úteis para explicar-lhe o que é o câncer.
Você poderá dizer, por exemplo, que existem diferentes
tipos de células no corpo e que elas devem trabalhar em equipe para
poderem realizar seu trabalho. As células podem ser descritas como
“encrenqueiras”, que desorganizam o trabalho das outras células,
de forma que possam trabalhar juntas outra vez.
Muito embora a compreensão da morte varie entre as crianças
de 7 a 12 anos, muitas crianças nessa faixa de idade pensam ou se
angustiam a respeito da morte. No entanto, elas freqüentemente têm
medo de dizer algo sobre o assunto para você. Seja franco e aberto
com ela. Diga a ela que você e as outras pessoas estão fazendo
tudo o que podem para mandar embora as células cancerosas. Garanta
novamente que muitas crianças com câncer ficam boas e que,
não importa o que aconteça, você estará sempre
ao lado. No caso de não ter certeza sobre o que dizer, peça
ajuda a quem também esteja envolvido com o assunto, seja pai ou responsável,
professores, médicos, enfermeiras, assistentes sociais ou a um religioso.
A partir dos 12 anos.
Muitas crianças com mais de 12 anos são capazes de compreender
as complexas relações entre diferentes acontecimentos, e
são capazes de pensar em coisas que nunca experimentaram.
Os adolescentes ainda definem as doenças pelos seus sintomas, tais
como cansaço e pelas limitações das atividades diárias.
Mas eles também são capazes de compreender as razões
para os seus sintomas. Assim sendo, você pode explicar o câncer
como uma doença na qual algumas células do corpo ficam “agitadas”.
Estas células crescem mais rapidamente que as células normais,
invadem outras partes do corpo, interrompendo as suas funções
normais. Por essa razão, o objetivo do tratamento é eliminar
as células “agitadas” e assim o corpo poderá voltar a funcionar
normalmente outra vez, e os sintomas irão embora..
Adolescentes compreendem que o câncer pode levar à morte.
Eles precisam que lhes asseguremos que muito progresso tem sido alcançado
no tratamento do câncer pediátrico. Eles também devem
ser informados que muitas crianças que tiveram câncer venceram
a doença, e hoje
vivem uma vida normal e saudável. De fato, o número de
pessoas que ficaram boas vêm crescendo ao longo dos tempos.
Mantendo abertos os canais de comunicaçõao.
Durante o tratamento e também o período de controle e acompanhamento,
você deverá continuar a conversar abertamente com a criança.
Da mesma forma que muitas outras crianças, ela, com o tempo, poderá
fazer perguntas mais complexas. Construir desde logo padrões de
comunicação franca com ela, vão apoiá-lo agora
e fortalecerão mais a relação entre vocês.
Em alguns momentos, você poderá sentir emoções
muito fortes quando estiver com a criança e, embora não deseje
sobrecarregá-la com as suas preocupações e sentimentos,
ela freqüentemente saberá como você se sente.No caso
dos pais ou responsáveis, é certo que as crianças chegam
a esconder os próprios sentimentos para protegê-los. E talvez
você, pai ou responsável, queira discutir os seus com ela, se
achar que eles interferem na relação. Você pode contar-lhe
porque razão está triste. Isso lhe confirmará que não
está zangada com ela, e permitirá que expresse seus próprios
sentimentos.
Durante o tratamento é importante lembrar que você, a criança
e todas as pessoas envolvidas no tratamento são companheiros. As
crianças que realmente se sentem fazendo parte dessa equipe estão
mais capacitadas a cooperar e aceitar o tratamento. Você poderá
ajudar a criança explicando-lhe o que irá acontecer e permitindo
que ele tome as decisões simples e sem risco sobre os cuidados médicos.
Questões que a criança poderá fazer.
As crianças são curiosas e podem ter muitas perguntas a
fazer sobre a sua doença e tratamento.A criança confia e espera
que você responda às perguntas. Algumas crianças perguntarão
de imediato, enquanto outras farão mais tarde. Apresentamos aqui
algumas idéias para ajudar a responder a algumas indagações
que ela poderá fazer.
Porque eu ?
As crianças, assim como os adultos, se perguntam porque tiveram
câncer. Elas podem vir a acreditar que o câncer foi causado
por alguma coisa que fizeram. Deve-se dizer à criança, com
franqueza, que ninguém – nem mesmo os especialitas - sabem
porque uma pessoa vem a ter câncer. É necessário que
se confirme que a causa da sua doença não foi alguma coisa
que fez ou deixaram de fazer. As crianças também precisam
saber que a sua doença não é contagiosa – elas não
pegaram câncer de outra pessoa.
Eu ficarei curado?
Muitas vezes as crianças tem conhecimento de familiares ou amigos
que morreram de câncer. Como resultado, muitas delas tem medo de
perguntar se ficarão boas. Elas temem que a resposta seja negativa.
Assim sendo, você deve contar a ela que o câncer é uma
doença séria, mas que a medicina, os raios X e / ou a cirurgia
vão ajudá-la a se ver livre dela. Você também
deve contar-lhe que todos, médicos,enfermeiras e a família
estão fazendo tudo o que podem para curá-lo. Usando esse
caminho, você estará dando à criança uma resposta
franca e uma esperança. Saber que existem tais pessoas e outros
para cuidar dela, fará com que sinta mais segura.
O que acontecerá comigo?
Assim que é feito o diagnóstico inicial, muitas coisas
novas e assustadoras acontecem com as crianças. Enquanto estão
no consultório, na clínica ou no hospital, pode ser que vejam
outras crianças com câncer que não estão se sentindo
bem, estão calvas ou sofreram alguma amputação. Nessa
situação, a criança pode ficar com muito medo de fazer
perguntas e poderá desenvolver receios não – realistas acerca
do que irá acontecer com ela. É por esta razão que
as crianças devem ser prevenidas sobre seu tratamento e efeitos colaterais
e informadas sobre o que será feito no caso de ocorrer algum efeito
colateral. Elas também devem ser informadas que existem muitos tipos
de câncer e que as coisas que acontecem com outras crianças
não tem, necessariamente, que acontecer com elas. Mesmo que tenham
um tipo de câncer igual ou mesmo tratamento.
Elas também devem ser informadas sobre o seu esquema de tratamento,
e também sobre modificações no esquema ou no tipo
de tratamento que vão receber. Manter um calendário que mostre
os dias de consulta, tratamento ou testes vai ajudá-las a se prepararem.
Por que eu tenho que tomar remédios se estou me sentindo bem?
Muitas pessoas associam tomar remédio a se sentir doente. Para
as crianças é desconsertante tomar remédios quando se
sentem bem. As respostas para esta questão podem ser relacionadas
à explicação original sobre o câncer. Pode-se,
por exemplo, contar às crianças que, apesar delas estarem
se sentindo bem e não apresentarem nenhum sinal da doença,
as células “mas” estão escondidas, e por isso elas devem tomar
remédios por mais um pouco tempo, de forma que as células
possam ser encontradas e impedidas de retornar.
O que devo contar às crianças da escola?
As crianças com câncer ficam apreensivas a respeito da reação
que terão seus amigos e os colegas da escola. Ficam ainda mais apreensivas
quando perdem muitas aulas ou retornam à escola com uma série
de alterações físicas, tais como perda ou aumento
de peso ou queda de cabelo. Procure encorajá-la a se manter em contato
com seus colegas e amigos mais próximos. Os amigos freqüentemente
querem saber o que aconteceu quando uma criança fica ausente
da escola. Incentive ela a falar francamente sobre a doença e o
tipo de tratamento que está sendo usado. Sugira que ela assegure
aos amigos que não se pega câncer de outra pessoa. Também
é bom que os professores da escola conversem com as crianças.
Tente explicar à criança que nem todas as pessoas -
inclusive adultos – conhecem a doença. As pessoas que não têm
conhecimento a respeito poderão dar informações erradas
a ela e essas conversas poderão levá-la a sentir medo e ter
dúvidas, apesar de você a haver encorajado. Pergunte a criança
sobre conversas que ela tem tido com outras pessoas, de forma que você
possa corrigir qualquer mal- entendido.
Você que não convive no ambiente da escola, poderá
perguntar a qualquer outra pessoa envolvida com o tratamento acerca da
possibilidade de uma palestra no colégio ou uma apresentação
na sala de aula que inclua uma seção de perguntas para ajudar
outros estudantes a compreender melhor o câncer, e o que está
acontecendo com a criança. Neste caso, os professores ou o orientador
da escola poderão ajudar.
A criança irá aprender duas importantes lições
acerca das reações que as pessoas tem à doença.
A primeira é que algumas pessoas, não importa o que lhes
foi dito, agem de maneira diferente, porque não tem muito conhecimento
sobre o câncer. A segunda é que os bons amigos permanecerão.
Eles sabem que ela é a mesma pessoa de antes.
Será que serei capaz de fazer as coisas que fazia antes de ficar
com câncer?
A resposta para esta pergunta é individual, depende do tipo de
câncer e também do tratamento.
Médicos e enfermeiras acharão melhor limitar certas atividades,
e dirão por quanto tempo haverá este limite. Não sendo
um deles, conte isso à criança e ajude-a a substituir algumas
das suas atividades por outras. Você poderá, por exemplo,
fazer com que os amigos vão visitá-la para desenhar, lanchar
ou brincar, caso seja recomendado que ela não deva andar de bicicleta,
pois o risco de se machucar é grande.
As crianças com câncer se sentem inseguras, ansiosas e às
vezes amedrontadas. Mas, ao contrário de muitos adultos, muitas
vezes elas são capazes de falar sobre os seus medos. Ao invés
disso, elas podem expressar seus sentimentos se mostrando desagradáveis,
turbulentas ou autoritárias. Ou ainda ficando mais quietas que o
normal. Conhecendo ou se informando do comportamento da criança,
você perceberá qualquer diferença. A brincadeira é
uma maneira da criança expressar e enfrentar medos e ansiedades e
você deverá encorajá-la a brincar. Desenhar e brincar
com bichinhos, bonecas e até mesmo material médico são
maneiras das crianças mostrarem que não estão compreendendo
o que está acontecendo ou que estão sentindo mais necessidade
de amor e encorajamento.
Algumas crianças acham difícil expressar seus sentimentos.
Elas podem ter pesadelos, dificuldades para se alimentar ou problemas de
comportamento. Elas também poderão não se sair bem na
escola. Algumas apresentam comportamentos imaturos, tais como molhar a cama
ou chupar dedo. Você, participando do tratamento, deverá conversar
sobre isso com os profissionais envolvidos no tratamento.
Lembre-se que ao longo do tempo, você, pai, mãe, professor
ou voluntário, já desenvolveu um “sexto sentido” acerca da
criança, e não precisará mais procurar sinais de problemas
observando o comportamento. Se eles existirem, serão óbvios
de perceber. Além disso, lembre-se que as pessoas envolvidas no tratamento
já tiveram experiências como a sua e desejam ajudar.
A seguir, apresentamos algumas idéias para dar mais segurança
à criança durante o diagnóstico e tratamento do câncer:
1* Lembre à criança que o câncer não foi causado
por uma coisa que ela fez. Nem a doença nem o tratamento são
punições.
2* Seja franco e realista na sua explicação sobre os procedimentos
e o tratamento. Informe a ela sobre qualquer modificação
no tratamento.
3* Ninguém – nem mesmo a criança – espera que você
saiba tudo. Não se acanhe de dizer que não sabe algo. Se
ela tem perguntas que você não sabe responder, diga-lhe que
tenterá descobrir as respostas.
4* Não tenha medo de fazer perguntas à criança.
Pergunte se o que está pensando ou sentindo não lhe criará
novos medos e lhe dará a chance de expressar os temores que tem.
5* Diga à criança que estará tudo bem se ela se
sentir triste e quiser chorar. Isso lhe dará uma válvula
de escape para suas emoções.
6* Estabeleça limites. Durante certo período a criança
poderá desobedecer às regras, mas isso, na verdade, pode
fazer com que se sinta mais ansiosas. Elas podem pensar que as coisas estão
piores que na realidade estão.
7* Deixe que a criança tenha algum controle sobre a própria
vida, desde que isso não ameace a sua saúde ou interfira
com o tratamento. Esse procedimento permitirá que ela amadureça,
apesar das restrições necessárias.
8* Encorage as atividades que reduzem a ansiedade. Desenhar, brincar
com material médico, bichinhos e faz-de-conta pode ajudá-la
a expressar seus sentimentos. Brincadeiras terapêuticas com o assistente
social ou o psicólogo pode ajudar as crianças menores a compreender
melhor e a ajustarem-se à doença.
9* Incentive a criança a falar sobre seus sentimentos. Conversas
familiares freqüentes podem ajudar a reduzir a ansiedade. O diálogo
auxilia a família inteira a enfrentar a enfermidade.
10* Admita que as crianças, assim como os adultos, tem dias que
estão bem e outros não.
11* Lembre-se que a equipe de saúde é o apoio para todas
as horas. Inclusive para dúvidas.
12* As crianças, principalmente aquelas que têm menos de
5 anos, temem ser abandonadas. Assegure à criança que, mesmo
que você precise se ausentar, ela continuará sendo amada, e você
voltará assim que puder.
13* Ajude a criança a manter contato com os amigos, parentes e
colegas da escola enquanto não puder freqüentá-la . Isso
mostrará que ela continua sendo uma criança normal, com amigos,
interesses e responsabilidade.
14* Incentive a criança a fazer deveres de casa e retornar às
aulas o mais cedo possível. Caso ela não possa ir à
escola, mesmo que seja por um período de tempo curto, procure fazer
que um professor acompanhe a criança na sua casa. Encorajá-la
a continuar os estudos, mesmo que em casa, será muito positivo para
ele.
15* Apesar de tudo que está acontecendo, a criança é
a mesma pessoa que era antes, com as mesmas necessidades psicológicas
que qualquer outra em fase de crescimento. Separe algum tempo sempre que
puder, para que vocês possam desfrutar ao máximo da companhia
um do outro.
Conversar com uma criança sobre câncer não é
fácil. Nós esperamos que essas informações tenham
dado a vocês algumas idéias que possam ser úteis. Você
também poderá fazer uso dessas idéias quando for conversar
com os filhos dos seus irmãos e amigos.
Tradução e adaptação autorizada por:
The Cancer Information Service
Nacional Cancer Institute
Bethesda,MD20892-0001
Título original
Talking with you child about cancer
Distribuição:
Associação de Apoio à Criança com Neoplasia
do Rio de Janeiro
Rua Pedro Guedes,44 – Tijuca – Rio de Janeiro
RJ – 20271 040 – Tele fax ( 21 ) 569-3644 / 569-5819
Tradução:
Arthur Camara Cardozo
Supervisão:
Dra. Sima Ferman
Agradecimentos:
Agradecemos aos companheiros Arthur Camara Cardozo a colaboração
que nos prestou traduzindo o texto e à Dra. Sima Ferman pela supervisão,
tão fundamental para o êxito deste trabalho. Não podemos
deixar também de expressar nossa gratidão à Tyocoi
que colaborou, incansavelmente, na identidade visual desta publicação
e a helográfica e a Prospec pela produção gráfica
do mesmo